Opinião

Liberdade de Opinião: Os recordes de feminicidio no Brasil e as feridas abertas que insistem em continuar

Por Guilherme Kalel: Jornalista e Editor

26/07/2026

O Brasil celebra conquistas na segurança pública com a queda nas taxas gerais de homicídios, mas a festejada estatística esconde uma ferida aberta e vergonhosa: a guerra declarada contra as mulheres. Enquanto os índices gerais de mortalidade violenta despencam, o país registra o quarto ano consecutivo de recorde em feminicídios. Em 2025, foram 1.571 mulheres assassinadas pelo simples fato de serem mulheres. Esse contraste brutal escancara uma verdade incômoda que a sociedade insistente e covardemente tenta ignorar. A violência urbana, de rua ou entre facções, responde a uma dinâmica criminal que o Estado por vezes consegue reprimir; já a misoginia estrutural habita no seio dos lares, protegida pela condescendência, pela omissão e pelo machismo velado.

Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública expõem a anatomia de uma tragédia previsível. A esmagadora maioria das vítimas é de mulheres negras, mortas dentro de suas próprias casas, executadas por quem prometeu amá-las ou proteger suas famílias. Não se trata de uma fatalidade ou de um momento de loucura passageira: o feminicídio é o ápice cruel de uma longa e documentada escalada de terror. Antes de o tiro ou a facada fatal acontecerem, o Estado já havia recebido centenas de alertas na forma de ameaças, perseguições, lesões corporais e violência psicológica. O impressionante avanço das tentativas de feminicídio e do descumprimento de medidas protetivas apenas confirma que o agressor não desiste de matar, e o sistema falha em impedi-lo.

Endurecer a legislação penal e criar novos tipos criminais são passos importantes para punir o agressor, mas se mostraram totalmente insuficientes para salvar vidas. A repressão policial e a resposta do Poder Judiciário chegam quase sempre no momento do necrotério. É preciso encarar que a tragédia da violência de gênero não será resolvida enquanto a segurança pública for tratada apenas como caso de polícia, e não como uma reconstrução cultural e social. O monitoramento eficaz de agressores, o fortalecimento real das redes de apoio e a educação continuada para a desconstrução do machismo tóxico são urgências absolutas. Continuar aceitando que a segurança melhore para quase todos, exceto para as mulheres em suas próprias casas, é aceitar a barbárie como rotina, é inaceitável.

*Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor.
Publisher da Amplinews e do Jornal RS Connect.
MTB: 89344 / SP.