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Crise no STF: Vorcaro procurou gabinete de Mendonça e acusou PF de não querer ouvir delação para poupar diretor da corporação

Por Guilherme Kalel

02/09/2026

O desdobramento das investigações em torno do empresário e banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, atingiu o centro do Poder Judiciário e da segurança pública do país. Preso no âmbito da Operação Compliance Zero, que apura fraudes e graves crimes contra o sistema financeiro, Vorcaro procurou o Supremo Tribunal Federal (STF) para negociar um acordo de delação premiada. O movimento gerou forte repercussão em Brasília após o relator do caso na Corte, ministro André Mendonça, derrubar o sigilo do processo e encaminhar o material para avaliação do plenário e da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Por iniciativa de sua equipe de defesa, Vorcaro solicitou uma audiência privada com juízes auxiliares do gabinete do ministro André Mendonça. Durante a reunião, o banqueiro manifestou o desejo formal de admitir sua responsabilidade em esquemas ilícitos, devolver os recursos financeiros obtidos ilegalmente e apontar a estrutura de sua rede de influência e corrupção. Em troca das revelações, sua defesa solicitou a concessão dos benefícios legais de redução de pena.

Diante dos magistrados, o empresário fez declarações sobre o uso do próprio poder econômico, reconhecendo que a fartura financeira o levou a cometer graves equívocos e praticar atos fora da lei. Vorcaro reiterou que apenas o compromisso com a verdade poderia garantir sua liberdade.

No relato apresentado aos auxiliares do relator, Vorcaro apontou que seu eventual acordo de colaboração alcançaria figuras de relevância no atual governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O principal nome mencionado pelo banqueiro foi o do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

De acordo com o empresário, o chefe da PF teria participado de viagens e eventos organizados por ele antes do cumprimento do mandado de prisão na operação. Vorcaro acusou os investigadores de evitarem o aprofundamento de suas tratativas de delação para poupar e blindar o nome do diretor da corporação.

Paralelamente, relatórios da perícia policial indicam a apreensão de anotações e mensagens nas quais o ex-banqueiro tentava intermediar acessos ou pedir proteção diretamente a figuras de destaque do meio jurídico e policial, incluindo o próprio procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues. As menções acirraram a tensão institucional entre o STF, a Procuradoria e a Polícia Federal.

O cenário institucional ganhou contornos ainda mais complexos na terça-feira, 1º de setembro, quando o ministro André Mendonça tornou públicos os relatórios e peças da investigação até então sob segredo de justiça. A decisão trouxe à tona conversas, trocas de mensagens e documentos recuperados do celular de Vorcaro que expõem sua proximidade e articulações diretas com o ministro do STF Alexandre de Moraes.
O relatório pericial da PF revelou o mapeamento de comunicações entre o banqueiro e o magistrado, com trechos de conversas por meio de mensagens temporárias e registros de contatos e encontros. Somam-se ao acervo provas de contratos milionários firmados pelo Banco Master com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, cujos honorários ultrapassaram dezenas de milhões de reais. A defesa da advogada sustenta que os contratos de prestação de serviços eram regulares e que o ministro jamais atuou ou julgou causas envolvendo o Banco Master que gerassem impedimento legal.

Com a divulgação integral dos autos, André Mendonça enviou o relatório pericial e as denúncias para a análise formal da Procuradoria-Geral da República e indicou que a validade e as implicações das apurações serão submetidas ao plenário do STF. A decisão de expor as relações do banqueiro e levá-las ao julgamento conjunto dos ministros escancarou divisões internas na Corte e abriu uma crise inédita, ampliando a pressão sobre as investigações que cercam o Banco Master e os limites éticos do relacionamento entre agentes financeiros e autoridades da República.