01/09/2026
Na segunda-feira, 31 de agosto, o afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência da República completou exatos dez anos. Uma década após o ápice de uma das maiores crises políticas e institucionais da história recente do Brasil, as cicatrizes daquele 31 de agosto de 2016 permanecem expostas. O impeachment não foi um evento isolado, mas sim o desfecho inevitável de um governo caótico, marcado pelo colapso econômico e por manobras contábeis ilegais que dilapidaram a confiança no país.
Dilma Rousseff foi afastada do cargo após cometer crime de responsabilidade fiscal por meio das infames pedaladas fiscais e da liberação de créditos suplementares sem a autorização do Congresso Nacional. As pedaladas consistiram em uma maquiagem contábil sistemática: o governo atrasava propositalmente o repasse de recursos a bancos públicos, como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, obrigando essas instituições a pagarem despesas de programas sociais (como o Bolsa Família e o seguro-desemprego) com recursos próprios. Na prática, a gestão Dilma usou os bancos públicos para obter empréstimos velados e esconder o verdadeiro tamanho do déficit fiscal do país, violando frontalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal.
O cenário econômico que embalou o processo de impeachment era devastador. O Brasil vivia uma das piores recessões de sua história, impulsionada pela “Nova Matriz Econômica” do governo Dilma — um coquetel indigesto de intervencionismo estatal, controle artificial de preços, subsídios desenfreados e irresponsabilidade fiscal. O Produto Interno Bruto (PIB) despencou mais de 7% no biênio 2015-2016, a inflação estourou o teto da meta ultrapassando os dois dígitos, as taxas de juros dispararam e mais de 12 milhões de brasileiros foram atirados ao desemprego. A maquiagem das contas ruiu e levou junto o dinamismo do país.
O rito do impeachment no Congresso Nacional foi um espetáculo de forte apelo dramático e polarização. Das votações na Câmara dos Deputados, com discursos extravagantes transmitidos ao vivo para todo o país, até o julgamento final no Senado Federal sob o comando do STF, o Brasil parou. Contudo, em uma manobra jurídica e política controvertida ocorrida no próprio Senado, o processo resultou no fatiamento da pena: Dilma perdeu o mandato, mas teve preservados os seus direitos políticos, mantendo a habilitação para exercer cargos públicos.
Essa preservação de direitos permitiu que a ex-presidente tentasse uma reeleição na política em 2018, candidatando-se ao Senado Federal pelo estado de Minas Gerais. Apesar do favoritismo apontado por pesquisas iniciais, a rejeição popular se fez sentir nas urnas e ela terminou o pleito em um amargo quarto lugar. Mais tarde, em 2023, sob o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma foi politicamente reabilitada no cenário internacional, sendo nomeada para presidir o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), conhecido como o Banco dos BRICs, em Xangai.
Entretanto, o maior impacto de longo prazo do fim da Era Dilma não foi o seu próprio destino individual, mas a reorganização tectônica da política brasileira. O vácuo de poder, a ruína econômica e a profunda desilusão da sociedade com os sucessivos escândalos do PT criaram o solo fértil para o surgimento de uma nova força de massa. Foi o caos do governo Dilma e o colapso de seu projeto político que alimentaram o sentimento antipetista e impulsionaram a ascensão do movimento conservador liderado por Jair Bolsonaro, culminando na sua vitória presidencial em 2018.
Dez anos depois, analisar a queda de Dilma Rousseff é compreender que a irresponsabilidade fiscal cobra um preço doloroso e real da população. O legado daqueles anos caóticos não se restringiu aos índices econômicos destruídos, mas moldou a polarização extrema que ainda define os rumos da política nacional.
