Por Mariana Cury e Isabella Campos
06/08/2026
A Polícia Federal concluiu o relatório sobre a queda do avião da companhia aérea Voepass, ocorrida em Vinhedo, no interior de São Paulo, em agosto de 2024, tragédia que resultou na morte de 62 pessoas.
No documento, a corporação indiciou 16 funcionários e ex-funcionários da empresa pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo. Entre os indiciados estão o presidente da Voepass, José Luiz Felício Filho, além de diretores de operações, manutenção, segurança operacional e técnica, gerentes de controle, mecânicos, despachantes operacionais e pilotos.
As investigações da Polícia Federal apontaram que a causa principal do acidente foi a perda de controle da aeronave em voo, motivada pelo acúmulo severo de gelo, pela inoperância do sistema pneumático de degelo e pela ausência de procedimentos adequados e tempestivos para lidar com a falha do sistema, a degradação de performance e a entrada em estol. A perícia revelou a existência de um comportamento sistêmico de falhas dentro da empresa, no qual tripulações anteriores deixavam de registrar formalmente discrepâncias e problemas recorrentes no sistema de degelo, permitindo que a aeronave continuasse voando com defeitos críticos e não solucionados.
Diálogos recuperados da caixa-preta comprovaram que as falhas no equipamento eram conhecidas pelos tripulantes. No voo imediatamente anterior à tragédia, o alarme de falha no sistema de degelo foi acionado oito vezes e reiniciado ao menos cinco vezes pelos pilotos, que chegaram a comemorar a chegada ao destino com a frase “chegamos vivos”. No voo do acidente, a tripulação voltou a comentar os problemas no equipamento, comparando o avião ao personagem de filme “Fusquinha Herbie” e mencionando que o sistema de degelo não estava funcionando, pouco antes de a aeronave emitir alertas de perda de performance, estol e proximidade com o solo.
Além do indiciamento dos integrantes da Voepass, a Polícia Federal encaminhou uma cópia do relatório à Corregedoria Regional da PF em São Paulo para avaliar se houve prevaricação ou corrupção passiva por parte de servidores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A medida ocorre após relatórios do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira, demonstrarem que a agência reguladora falhou na fiscalização e na gestão de riscos ao não coibir as práticas informais e a falta de registros de manutenção na companhia aérea.
